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centaurius

Na mitologia grega, o centauro (em grego Κένταυρος Kentauros, "matador de touros", plural Κένταυρι Kentauri; em latim Centaurus/Centauri) é uma criatura com cabeça, braços e dorso de um ser humano e com corpo e pernas de ca

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Como poderiam ser bonitos os dias de Primavera Parte 1

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 Como poderiam ser bonitos os dias de Primavera

1

 

 

Um dia muito longínquo, ainda quase menino (tinha 10 anos) num monte longe da sua terra e de seus pais, brincava junto de uma vara de porcos, muitos talvez 90 ou 100, marrãs e leitões, que corriam num frenesim louco mas alegre de azinheira para azinheira, em busca da bolota destas, que era para eles o grande petisco, a sua missão era guarda-los, fazia-o a brincar.

Lembra o dia em que lá longe na estrada municipal passou um carro vermelho, descapotável, que bonito era, deslizava a pouca velocidade, como se os seus ocupantes (condutor e acompanhante) fossem saboreando a beleza daquela paisagem que era sua, daqueles sons que só ele ouvia e daquele cheiro a erva, que era só seu, ficou a olhar para ele até desaparecer na estrada, e sozinho, já tinha passado aos animais a euforia da bolota e tranquilamente iam focinhando a terra comendo raízes e pastagem que abundava.

Lá vinha o seu tio, tinha ficado no monte a tratar de assunto relacionado com os animais já que era ele de facto o seu responsável, caminhava tranquilamente observando-os com disfarçado sorriso, que não escondia a sua boa disposição, e ele sabia porquê, bom homem, mas sempre carrancudo, só que hoje é quarta-feira, é dia de ir a casa, e lá dormir.

Ficou parado a olhar para ele como se o quisesse questionar, nada dizia, muito mais tarde veio a entender este comportamento, olhou a planície num olhar distante como se quisesse ver o mundo e nada visse, e concentrando o seu olhar nos animais, depois nele diz-lhe, vamos comer um bocado de pão, com toucinho, rapaz que o almoço já vai longe, saca do bolso uma navalha, com a folha já tão gasta de velhinha que era, tira um quarto de pão e um naco de toucinho, da bolsa que trazia a tiracolo, corta em partes iguais o pão, e o toucinho

Dá-lhe a sua parte, vamos a isto rapaz que os gajos agora estão sossegados, diz-lhe, obrigado ti Manel, sentam-se num tronco partido por baixo de uma azinheira e silenciosamente degustam aquele pão com toucinho, que agradável estava, até parece que o conseguia cheirar, á distância.

O ti Manel ,levantou-se e inclinado sobre o cajado , encostado a este ,vasculha o horizonte contemplativamente ,concentra-se nos animais ,procura o seu relógio de bolso, consulta-o, e diz-lhe que são horas de levar estes gajos para a malhada e dirige-se á vara ,que se encontrava espalhada pelo campo, andavam muito tranquilos os porcos ,muitos ainda se encontravam deitados debaixo das azinheiras.

Agitando o cajado no ar, falava-lhes como se o entendessem, e entendiam com certeza pois lá se encaminhavam no sentido do monte, a alguns metros de distância na mesma linha, acompanhava-o, repetindo os seus gestos e comportamento perante os animais, o resultado era visível já se encaminhavam todos em várias filas ,zigzagueando conforme os carreiros já obra deles, correndo e pulando ,grunhindo em alegria evidente ,quais crianças no caminho para o recreio .

Acalmados chegados á fonte, bebedouro, onde bebiam água com fartura e posteriormente se iam chafurdando nas poças de água suja que havia em redor. (refrescavam e livravam-se das moscas, que muito os incomodava).

Deixamo-los no cumprimento daquele ritual diário, sabiam que passado algum tempo, e a tarde a aproximar-se da noite, eles iam ter sozinhos á malhada, já ali perto, depois era só esperar que chegassem todos e fechavam o portão.

A caminho do monte o ti Manel diz-lhe que já é um homem e tem que assumir-se como tal, sabe guardar gado, e tem muitas responsabilidades, não era como os cajopos da sua idade, que passavam o dia lá na terra, a brincar, jogar á bola e a fazer disparates e podia confiar nele, que do monte até Seda ou do monte até Valongo passando pela Enxara não havia viva alma, e só eles dois, aqui sem medos é que dominavam aquilo, somos dois homens valentes dizia ele.

Ele já sabia o que vinha a seguir e as palavras não chegavam para lhe tirar o medo que já sentia e ainda agora estava o sol a pôr-se, dirigiram- se para a casa do caseiro que ficava junto á malhada, constituindo parte desta, já lá dentro o ti Manel encosta o cajado a um canto, pendura a sua bolsa que usava para levar para o campo a comida e fruta, tira e pendura noutro gancho, a cabaça que também usava á tiracolo, despe uma jaqueta já muito gasta, e veste uma samarra já velhinha mas com muito bom aspeto, tira a boina ajeita o cabelo com as duas mãos, bate com a boina meia dúzia de vezes no joelho para lhe sair o pó, e esfrega as botas com um pedaço de saca vazia das rações.

Sentado num mocho com o trançado já gasto mas cómodo, aguarda o desfecho da conversa, (o medo de ficar ali sozinho já era maior) pronto rapaz começa a ficar tarde, e tenho que ir, queres algum recado para a tua mãe, ou queres, de lá alguma coisa, pergunta-lhe, não obrigado ti Manel não é preciso nada, és um homem agora és tu que ficas aqui a mandar, amanhã bem cedinho já estou aqui outra vez, até amanhã despede-se.

Veio para a rua vê-lo partir, já lá frente voltou-se como se pressentisse que o estava a seguir, e disse-lhe, vê lá rapaz não quer que fiques com medo, se assim for diz-me, que eu vou amanhã durante o dia, medo ele, não senhor, até amanhã, respondeu-lhe.

O sol tinha acabado de se pôr, o crepúsculo brilhante no fim do horizonte, irradiava uma beleza estranha, e o ti Manel caminhava passo firme na sua direção, não ao seu encontro mas a caminho de casa, ele ficou sozinho.

Correu para casa, espreitou debaixo das sacas vazias em monte a um canto, espreitou a chaminé, e nada, não via nada de anormal, então debaixo de um pano que já fora branco, mas limpo encontra uma marmita com sopa de tomate, mais cebola que tomate mas que bom cheiro irradiava e numa tijela de barro gasta de tanto uso, cheia de azeitonas, e um pedaço de pão enrolado num outro pano, era a sua ceia, o ti Manel nunca se esqueceria disso.

Atira-se á sopa, com o pão na outra mão e penicando a tijela das azeitonas, rapidamente, acabou o seu manjar.

 

Espreitou á porta, de onde avistava todo o pátio do monte, já era quase noite, e não via nada, não havia nada para ver, uma tranquilidade absoluta, e um silêncio profundo, interrompido de quando em vez por ruido prolongado e agudo que deveria ser de alguma coruja que estava por ali perto.

 

Entrou, fechou a porta ao trinco, não tinha chave, foi preparar a dormida, quando procurava as mantas para se proteger do frio, ouviu o que lhe parecia um grito por cima do telhado, o medo estava a domina-lo, afinal era no telhado, mas repara agora que este tem um grande buraco, as telhas já estão partidas há algum tempo, bolas e só agora é que reparou nesse pormenor, repete-se o ruido, mas agora nota nitidamente tratar-se da maldita coruja.

O telhado aberto não o deixa tranquilo, e a sua mente vagueia por uma enormidade de problemas que possa vir a ter, daí provenientes, a verdade é que tudo por ali podia entrar.

Na malhada havia um estábulo onde se encontravam presos a uma manjedoura um burro e uma mula, e foi desses que se lembrou para companhia, e assim não estando sozinho a sua cabeça não pensaria em disparates (não devia ter nada a temer, porque sabia que se houvesse algum problema o ti Manel não o deixaria ali sozinho) assim o pensou assim o fez, pegou nas três mantas que já tinha juntas, e em três sacas de ração vazias, e a medo, olhando para todos os lados, nada já se via era noite escura, entra na malhada tinha-se esquecido de fechar a porta, fecha-a desta vez, e dirige-se ao estábulo.

Os animais assustam-se, movimentam-se de um para outro lado com algum nervosismo, mas rapidamente os tranquiliza com palavras suaves e calmas, que naturalmente não compreendem, mas sentem as intensões, faz festas no lombo, e na cabeça da mula e os animais sossegam completamente e aceitam a sua presença como se fosse um deles.

Puxa a cabeça da mula, até esticar completamente a corda, que a prende á manjedoura, e assim estabelece o limite da cabeceira da sua cama, enrola uma saca em forma de almofada, coloca-a no limite já determinado.

Põe as duas sacas por cima de uma camada de palha, estica por cima as mantas, deixa-se rir, por que dos animais só distingue dois vultos, mas sabe que são eles, e ou muito se engana ou, a sacaninha da mula está a ver se lhe come a almofada ´que é só o que consegue vislumbrar da sua cama, mas não lhe chega lá , fica quase junto ,precisamente como queria, descalça as botas e mesmo vestido aninha-se debaixo das mantas, volta-se para o lado da malhada onde estão os porcos, sente o respirar da mula na sua cabeça ,já não tem frio, nem tem Medo, adormece.

 

 

 

 

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